Algarve: 95 mil toneladas de frutos e mais de 130 milhões de euros em risco devido aos cortes de água

A Comissão para a Sustentabilidade Hidroagrícola do Algarve (CSHA), que reúne 120 entidades e agricultores algarvios, fez uma primeira análise do impacto económico e ambiental das restrições ao fornecimento de água anunciados pelo Governo.

Nesta análise, a CSHA estudou a diminuição de rendimento de sectores-chave da agricultura do Algarve, em particular, a produção de citrinos, de abacates, de frutos vermelhos, o sector vitivinícola e ainda a produção de plantas ornamentais e de animais.

No Algarve, segundo dados da agora extinta Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, existem 22.000 hectares de regadio, 10.000 dos quais dependem de águas superficiais. Destes 10.000 ha, neste momento, estão a regar 7.644 ha, divididos por 6.000 ha no Sotavento (dos 8.600 abrangidos por este perímetro de rega) e 1.644 há no perímetro de Silves, Lagoa e Portimão (dos 2.600 totais).

No caso do perímetro de rega da Bravura, que abrange 1.747 ha – sendo a área beneficiada de 837 ha –, a Agricultura não recebe água pelo terceiro ano consecutivo. Isto é o que já acontece neste momento. Com as novas medidas anunciadas pelo Governo, o perímetro de rega do Sotavento terá um corte de 72% e os perímetros de rega do Barlavento terão cortes entre os 65% e os 100% (Silves, Lagoa e Portimão e Bravura, respectivamente).

Para produtores instalados nestas áreas e dependentes de águas superficiais, o impacto das medidas será enorme, uma vez que estão em causa as florações que darão origem aos frutos a colher na campanha 2024/2025. Sem água para fazer um boa floração, vingamentos e passar o calor do Verão, apenas se conseguirá assegurar a sobrevivência das árvores, comprometendo toda a produção.

No total, com base nos cálculos de chuva previstos, e nas medidas do Governo de corte de água, a CSHA estima que as produções de 2025 sofrerão graves reduções, cerca de 88.000 toneladas de laranjas, 6.500 toneladas de abacates, 850 toneladas de frutos vermelhos, ou seja, 95.350 toneladas de fruta, cerca de 1 milhão de garrafas de vinho, e a quebra total do sector das plantas ornamentais, com uma perda económica estimada de 134 milhões de euros.

O sector dos citrinos estima que os cortes de água anunciados devem resultar numa diminuição de 16% da produção já em 2024, com impacto directo na quantidade de fruta, na alteração da forma do fruto, ou até na redução da percentagem de sumo em cada fruta. Há dois anos, o sector citrícola perdeu acesso à água da barragem da Bravura, e teve somente acesso limitado à Barragem do Arade, o que começou a
comprometer a produção, que deve se prevê que alcance, em 2025, o valor mais baixo de produção dos últimos anos. Em determinadas variedades e produtores, a redução pode chegar aos 90%.

As medidas do Governo comprometem 1.330 hectares de abacates algarvios, mais de metade da área de plantação dos produtores analisados, com duas consequências imediatas: a gestão deficitária de mais de 220 trabalhadores permanentes e 700 sazonais e a perda de competitividade para outros países, com a exportação de abacate a representar 90% do negócio.

Os produtores de frutos vermelhos apontam para uma quebra de 18% de produção, com a gestão de água a prejudicar o funcionamento regular das estufas, onde trabalham cerca de 1350 profissionais permanentes e 3500 sazonais.

Já o sector vitivinícola, representada na CSHA por 70 vinicultores e 55 produtores de vinho, garante que os cortes de água anunciados podem conduzir a um estado de seca moderada, com uma quebra de produção de 60%, com a produção de vinhos de menor qualidade. Na última década foram investidos na região mais de 150 milhões de euros na aquisição de propriedades, plantação de vinha, construção e equipamento de adegas, assim como no desenvolvimento do enoturismo. O enoturismo também está em risco: a produção limitada de uva e a deterioriação da paisagem são outros possíveis resultados dos cortes ao acesso a água.

O cenário mais grave é no ramo das ornamentais (flores), que estima uma quebra total do sector em 2025. A falta de água prejudica por completo um produto onde se vende a “beleza” e o sector aponta para o desperdício de todas as flores dos 160 hectares, com um prejuízo de 30 milhões de euros. Além das ornamentais, a produção animal reitera que as medidas colocam em risco a manutenção de toda a actividade pecuária do Algarve, que são hoje cerca de 24 mil animais (bovinos, ovinos e  caprinos).

Já em 2023 houve um aumento na ordem dos 300% na compra de alimentos para os animais, dada a escassez de água na região, aumentando  significativamente os custos de produção.

O cenário apresentado poderá agravar caso não chova a estimativa do Governo para os próximos meses. A CSHA reforça que os cortes de 25% do fornecimento de água para a agricultura é uma mera operação de cosmética. Em alguns casos, a redução pode chegar a 72%, com impactos agora evidentes para o ambiente e economia da região. A Comissão reitera que não é contra medidas que procuram controlar um evidente problema hídrico do Algarve, uma questão urgente na região que se arrasta há décadas sem soluções concretas. A agricultura não pode é continuar a ser considerada o parente pobre da economia algarvia, rematam.

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