Projecto Nustalgic promove sistemas alimentares resilientes ao clima e sustentáveis na região mediterrânica

Lançado em Junho de 2025, o projecto Nustalgic (Neglected and Underutilized Species and waTer hArvesting for buiLdinG ClImate Change resilience) visa «modernizar e promover soluções sociais e tecnológicas que integram técnicas ancestrais de captação de água, sistemas agrícolas baseados em espécies ou variedades negligenciadas e subutilizadas e cadeias de valor alimentares sustentáveis, contribuindo para sistemas agroalimentares mais resilientes» na região mediterrânica. Tem três anos de duração (até 2028) e um orçamento de 4,41 milhões de euros, está integrado no programa PRIMA (Parceria para a Investigação e Inovação na Região Mediterrânica), é apoiado pela União Europeia, reúne 11 parceiros de Portugal, Líbano, Marrocos, Tunísia, Espanha, Itália, Grécia e Jordânia – entre instituições de investigação, organizações não governamentais e empresas, reunindo competências nas áreas da agricultura, gestão da água, inovação alimentar e desenvolvimento socioeconómico – e está focado nas vertentes de inovação, sustentabilidade e inclusão. 

Em comunicado, os promotores do projecto Nustalgic realçam que «a agricultura na região mediterrânica enfrenta desafios crescentes associados às alterações climáticas, à degradação dos solos e à escassez de água». «Paralelamente, esta região apresenta elevada biodiversidade agrícola, com culturas que, infelizmente, têm sido progressivamente abandonadas pela agricultura moderna. Entre estas, incluem-se leguminosas tradicionais, cactos e variedades tradicionais de cevada, culturas naturalmente adaptadas a ambientes áridos e eficientes no uso da água. Por isso, constituem uma oportunidade estratégica para reforçar a resiliência climática, a segurança alimentar e a qualidade nutricional, contribuindo para sistemas agrícolas mais sustentáveis», assinala. 

Neste contexto, explica-se que, desde o lançamento do projecto, os parceiros «iniciaram a preparação e instalação dos ensaios de demonstração nas diferentes regiões participantes» e que «as actividades actuais centram-se na selecção de locais, no planeamento da implementação e na distribuição e sementeira de cevada, leguminosas tradicionais e cactos». Em Portugal, estão já activos dois locais de demonstração – na Lipor (Maia, Porto) e na Herdade do Freixo do Meio (Montemor-o-Novo, Évora; na imagem em baixo) –, onde «variedades de grão-de-bico e de fava já foram cultivadas e já estão em crescimento». 

Segundo os promotores do projecto, «estes primeiros passos marcam o início de actividades de campo coordenadas, que funcionarão como laboratórios vivos para testar sistemas de captação de água, estratégias de cultivo e soluções baseadas na natureza adaptadas às condições locais». Assim, a equipa do Nustalgic também «vai implementar tecnologias de captação de água, incluindo sistemas de recolha em coberturas, estruturas em socalcos e a modernização de reservatórios tradicionais», sendo estimado que estas soluções «permitam um aumento da disponibilidade de água entre 20–25% e uma melhoria da eficiência do uso da água em cerca de 20% nas áreas piloto».

Em paralelo, o projecto «vai estabelecer quatro plataformas de inovação multi-actor para agricultura de sequeiro em Marrocos, Líbano, Tunísia e Jordânia, criando 80 locais de demonstração e envolvendo mais de 1.200 agricultores, com uma meta de 20% de adopção das novas tecnologias». «Estes locais irão testar inovações que vão desde sistemas de cultivo baseados em NUS e monitorização da saúde do solo até pequena maquinaria para colheita e produção de alimentos para animais, assegurando resultados práticos e escaláveis», relata o comunicado.

Os promotores do Nustalgic afirmam que, no total, se «prevê o desenvolvimento de 18 tecnologias nas áreas da gestão da água, melhoria das culturas e valorização de subprodutos, com o objectivo de reduzir custos de produção, aumentar a produtividade em 15–20% e promover o empoderamento de mulheres e jovens, através de uma participação equitativa e de oportunidades de liderança». A Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa (ESB/UCP), com a sua unidade de investigação, o Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF), tem a seu cargo a coordenação e gestão do projecto, a implementação científica e a liderança do «desenvolvimento de produtos alimentares inovadores a partir das variedades negligenciadas, a sua caracterização nutricional e a valorização de produtos». 

No comunicado, refere-se que a ESB/UCP também «estabelece a ligação entre a produção agrícola sustentável e a inovação alimentar, promovendo dietas saudáveis e inteligentes, em consonância com o clima, para a população mediterrânica». É igualmente salientado que os parceiros desta iniciativa estão unidos por «uma missão comum de reforçar a sustentabilidade da agricultura mediterrânica» e que, «ao combinar conhecimento tradicional com inovação moderna, o projecto promove uma abordagem WEFE Nexus (Água–Energia–Alimentos–Ecossistemas), assegurando a utilização eficiente dos recursos e o equilíbrio ambiental». 

Marta Vasconcelos, investigadora e coordenadora do Nustalgic, diz que, «ouvindo os testemunhos dos nossos colegas na Jordânia, Marrocos, Tunísia, Líbano, Grécia e Itália, este projecto permitiu-me perceber, em primeira mão, o contexto difícil em que vivemos no Mediterrâneo, devido à escassez de água e ao abandono do cultivo de espécies e variedades com enorme potencial». «Esta união de esforços e de sabedorias antigas e modernas cria um ecossistema muito especial para implementarmos acções com verdadeiro potencial de gerar impacto nas economias locais. Um aspecto que me entusiasma é o envolvimento de mulheres e jovens agricultores na cocriação de soluções verdadeiramente inclusivas», sublinha.

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