Gestão da água, adaptação às alterações climáticas, competitividade, inovação e políticas públicas necessárias para suportar o crescimento do sector foram temas em foco no VIII Colóquio Hortofrutícola, evento que se realizou a 17 de Julho em São Teotónio. Subordinado ao tema “Reconstruir, Produzir, Crescer: Ambição e Sustentabilidade”, o VIII Colóquio Hortofrutícola decorreu integrado na programação da FACECO – Feira das Actividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira e foi organizado pela Lusomorango – Organização de Produtores de Pequenos Frutos em associação com a Universidade Católica Portuguesa.

Os temas já referidos, considerados pela organização como «os principais desafios da agricultura portuguesa», e o tema do território foram abordados nos vários painéis ao longo da manhã, com as intervenções a reforçarem «a necessidade de criar condições para que o sector continue a crescer de forma sustentável», salienta um comunicado da organização. O presidente da Câmara Municipal de Odemira, Hélder Guerreiro, indicou que a revisão das estimativas populacionais do concelho obriga o Estado a «reforçar o investimento» em habitação, saúde, educação e acessibilidades, enquanto o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDR Alentejo), Ricardo Pinheiro, pediu um «lobbying justo», que permita adequar os investimentos públicos à realidade do território.

No painel dedicado ao impacto dos choques climáticos, Miguel Morgado, professor da Universidade Católica Portuguesa, apresentou uma reflexão sobre a necessidade de a Europa recuperar ambição económica – «Na Europa só se fala de resiliência e nunca de crescimento e desenvolvimento» – e defendeu uma «mudança da cultura pública» que permita voltar a colocar o crescimento económico no centro das políticas europeias. Carlos Vicente (Vitacress), Helena Cortes Cavaco (CCDR Alentejo), Luís Souto Barreiros (Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas) e também Miguel Morgado advogaram uma agricultura «mais preparada» para responder às alterações climáticas, assente em tecnologia, simplificação administrativa, seguros mais flexíveis e instrumentos públicos mais ágeis.

Na mesa-redonda que teve lugar na sequência da apresentação do Plano de Gestão Ambiental 2026-2028 da Lusomorango, Filipa Saldanha, directora do Departamento de Sustentabilidade da Caixa Crédito Agrícola, referiu que o «financiamento sustentável» permite responder simultaneamente à redução do risco, à transição para modelos produtivos mais inovadores e à criação de novas oportunidades de financiamento. Eduardo Bremm, director de Operações Ibéria da Driscoll’s, lembrou que as exigências dos consumidores e dos retalhistas são hoje significativamente superiores, tornando a sustentabilidade um «factor de competitividade» – «Os consumidores estão mais exigentes e os retalhistas enfrentam metas apertadas de redução da pegada ecológica» – e sustentou que «sem certificações simplesmente não é possível».

No painel sobre “Produzir e crescer com ambição e sustentabilidade”, Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, apresentou uma reflexão sobre competitividade internacional, tendo avisado que, mantendo-se a tendência actual, a União Europeia poderá registar, pela primeira vez, uma balança comercial agroalimentar negativa até ao fim da década, e tendo defendido «maior investimento» em água, inovação e reciprocidade nas regras comerciais internacionais. Por sua vez, Macário Correia, presidente da AdP Aqua (a empresa criada para implementar a estratégia Água que Une), elencou os investimentos previstos para o Aproveitamento Hidroagrícola do Mira, incluindo a modernização do sistema de rega, novas captações e reforço da eficiência hídrica.

Na mensagem em vídeo dirigida ao Colóquio, o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, realçou a evolução da fileira dos pequenos frutos na última década – a produção nacional triplicou entre 2015 e 2025, atingindo 91,4 mil toneladas –, que o sector, em 2025, gerou mais de mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto (VAB), sustentou mais de 34.000 empregos e representou quase 400 M€ de exportações e que se prevê que o impacto económico ultrapasse os 1.400 M€ em 2026. «O futuro da nossa agricultura passa precisamente por fileiras de elevado valor acrescentado, como a dos pequenos frutos, capazes de conciliar competitividade económica, responsabilidade ambiental e desenvolvimento regional», disse. O ministro falou ainda da Estratégia Nacional Água que Une, da modernização dos aproveitamentos hidroagrícolas, da gestão sustentável da água no Mira e dos apoios disponibilizados para responder aos prejuízos provocados pelos fenómenos meteorológicos extremos.

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, também enviou um depoimento em vídeo, onde destacou o percurso da fileira dos pequenos frutos, que o crescimento deve ser acompanhado por uma «crescente preocupação com a sustentabilidade» e que a estratégia Água que Une assenta nos princípios de «reduzir, reutilizar e combater o desperdício de água» – tendo assinalado os avanços alcançados ao nível da eficiência hídrica. Frisou ainda os «resultados promissores» na eficiência hídrica da cultura da framboesa obtidos no Centro de Investigação para a Sustentabilidade, criado em 2023 em Odemira, numa parceria entre Lusomorango, Instituto Nacional de Investigação Alimentar e Veterinária (INIAV), Driscoll’s e Maravilha Farms. «A conjugação da vontade de crescer e de criar valor acrescentado, para as pessoas e empresas, com as preocupações ambientais e climáticas, é o desenvolvimento que defendemos para o país», comentou.

No encerramento, o presidente da CAP, Álvaro Mendonça e Moura, declarou que «não podemos ter um país com a ambição de crescer no sector industrial e no comércio, mas em que a agricultura é um sector para conversar. É um sector para crescer, para se desenvolver, para dar lucro». O presidente da CAP defendeu ainda que água, mão-de-obra, habitação, promoção e capacidade de resposta das instituições públicas serão factores determinantes para assegurar o futuro da agricultura portuguesa.
