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Conflito entre Rússia e Ucrânia compromete mercados do trigo e milho

A invasão russa na Ucrânia e a incerteza do desfecho deste conflito estão já a agitar o mercado de produtos agrícolas, nomeadamente no que diz respeito ao trigo e ao milho. A Rússia é o maior exportador mundial de trigo. Já a Ucrânia é conhecida como celeiro do Mundo, tendo uma actividade muito forte em milho e em trigo.

«A Ucrânia é um grande exportador de trigo e milho, e qualquer interrupção nas suas exportações levaria a um aumento nos preços globais», disse à CNN Ophelia Coutts, analista russa da consultoria de risco global Verisk Maplecroft.

Sanções à Rússia como resultado desta invasão também podem atrapalhar os mercados. Mesmo que os produtos agrícolas não sejam direccionados directamente, o corte de vínculos com o sistema financeiro global trará consequências.

A interferência nos embarques de trigo ou milho dos dois países pode aumentar a inflação de alimentos, principalmente em partes do mundo que dependem deles para suprimentos.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, os preços globais dos alimentos subiram 28% em 2021 e devem continuar a aumentar este ano.

A principal preocupação entre investidores e analistas de mercado é que a Rússia possa bloquear os portos da Ucrânia no Mar Negro como forma de pressão. Estamos a falar de dois países que terão ainda cerca de 15 milhões de toneladas de trigo das últimas campanhas, de acordo com Tracey Allen, especialista de commodities agrícolas do JPMorgan.

As regiões ucranianas mais produtivas localizam-se perto das zonas separatistas pró-russas, bem como portos importantes, o que agrava o problema. O The Wall Street Journal lembra que quando a Rússia anexou a Crimeia em 2014, os preços do trigo dispararam cerca de 25% em dois meses perante as preocupações de possíveis interrupções no fornecimento com origem no Mar Negro.

Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, 95% das exportações de trigo da Ucrânia são transportadas através do Mar Negro.

A escalada dos preços é quase uma inevitabilidade.

Outra preocupação, e esta levantada pela S&P Global Platts, prende-se com o facto de os agricultores ucranianos não conseguirem receber remessas de produtos necessários, como fertilizantes, antes da próxima temporada.

Um dos resultados mais perturbadores para os mercados de cereais seria se os países ocidentais decidissem colocar um embargo às exportações russas de trigo. O país responde por cerca de 20% do comércio global de trigo, segundo analistas do ING.

Portugal compra 18% dos cereais que consome à Ucrânia. Segundo os dados do Observatório, a Ucrânia é o segundo principal país a abastecer Portugal com cereais (18,4%), depois de França (20,7%) e antes do Brasil (14,6%).

No caso do milho, Portugal tem na Ucrânia o principal fornecedor, comprando àquele país 40,1% do milho que consome. Segundo dados do INE, em 2021, comprámos mais de 152 milhões de euros em cereais à Ucrânia.

Citado pelo jornal Observador, o secretário-geral da Associação Nacional de Armazenistas, Comerciantes e Importadores de Cereais e Oleaginosas (ACICO), José Miguel Ascensão, confirmou as preocupações avançadas pelos especialistas mundiais. «Naturalmente, a interrupção das importações do Mar Negro vai ter uma repercussão imediata nos preços e na disponibilidade destes produtos e de outros desta origem, como cevada, girassol, etc. Aliada a todos os problemas logísticos que se verificam desde 2020 e 2021 a nível mundial, à disponibilidade de navios e custo dos fretes, vai ter um impacto profundo nos preços e disponibilidade das matérias-primas com a correlativa repercussão nos preços do pão, carne, leite e ovos», afirma.

Apesar de não prever escassez de cereais em Portugal, o secretário-geral da ACICO relembra que a maior parte dos cereais que importamos aos dois países se destinam a alimentação animal. Os mercados que podem suprimir as necessidades passam por EUA, Brasil, Argentina, África do Sul e Austrália.

Já quanto à Rússia, os cereais são o 11º produto que mais importamos.

 

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